segunda-feira, 12 de março de 2012

Experiências durante o Nehan Sesshin no Zendo Brasil - São Paulo - 17/02 a 22/02


O Nehan Sesshin é um retiro tradicional realizado em celebração a passagem do Buda histórico, Xaquiamuni Buda, ao Parinirvana/Nirvana Final, o que teria ocorrido em 15 de fevereiro de 543 a.C, aos seus 80 anos.



Aqui minhas impressões:

Antes de chegar:
Conheci a Monja Coen pela internet. Li seus textos e vi palestras e entrevistas pelo youtube. Ouvindo-a, sentia como se identificasse nas suas palavras uma verdade que eu mesmo tentava expressar, mas que não tinha suficientemente articulada ou mesmo compreendida. Quis conhecê-la e trilhar o caminho que ela dizia ser suficiente para trazer paz aos espíritos inquietos: o zazen (meditação sentada).

1º dia.
A técnica do zazen:
O Sesshin começou com instruções informais aos iniciantes sobre como fazer zazen: sentados num safu (parece-se com uma almofada), com a coluna ereta, queixo levemente em direção ao peito e olhos semi-abertos em 45° para baixo fitando uma parede branca. Com as pernas cruzadas e os joelhos apoiados no chão para manter a posição com menos esforço. Os dedos da mão esquerda ficam sobre os dedos da mão direita, com os dois polegares se tocando muito levemente (o que forma uma elipse). Nessa posição, as mãos ficam apoiadas rente ao tronco logo abaixo do umbigo. 
E lá fui eu em busca da paz interior no primeiro zazen da noite.

Minha primeira experiência de meditação em grupo:
Sentei, imóvel, junto com outras 35(?) pessoas por 30 minutos. Tentei observar minha mente e não mexi para trocar as pernas de posição quando a esquerda ficou dormente (como costumo fazer na meditação que pratico em casa). 
Um período de zazen é sempre seguido de um outro de meditação andando (kinhin), que dura 10 minutos. Anda-se MUITO devagar mantendo os olhos para baixo. O propósito é concentrar-se em cada mínimo movimento do corpo, mas é também um momento para aliviar as dores. Eu, entretanto, não consegui levantar durante a maior parte desses 10 minutos, tamanha a dormencia em que estava minha perna esquerda.
O sino toca por três vezes e voltamos a sentar para outro período de 30 minutos de zazen. Depois de 5 min minha perna já estava doendo novamente, e lembrei que a sensei/Monja Coen, numa entrevista, falou de uma aluna que sempre se movimentava quando o corpo começava a doer, até o dia que ela decidiu não mais se movimentar, voltou a atenção para a própria mente e a dor desapareceu. Achei a história o máximo e resolvi fazer igual. Não movimentei a perna pelos 20 min seguintes, por mais que a dor fosse intensa, esperando que ela desaparecesse, até que fui praticamente tomado por um desmaio. Três monges me abanavam (apenas os que estavam ao meu lado, pois os demais continuavam a olhar para a parede). Me ofereceram um copo d'água, e sal para a pressão. 
Fiquei envergonhado pelo o que aconteceu, mas como o evento começou as 20h, não haveria outros períodos de zazen naquele dia.

2º dia.
O relógio atrasado:
Pela manhã eu e o monge Ryozan preparamos uma papa de arroz, cozinhamos legumes, fizemos uma grande salada de frutas e fomos a feira. Depois, por acaso, olhei para o relógio. Marcava 9h30. Por um momento pensei que o relógio estava atrasado, afinal os legumes do almoço estavam deliciosos.Foi quando lembrei que aquele havia sido apenas o café da manhã, pois havíamos acordado as 5h, quando ainda havia estrelas no céu.
Nos dias seguintes o regime de 6h30 de sono diário seria uma das grandes dificuldades que enfrentei.

Conversa com Monja Coen:
Ainda pela manhã (elas eram muito longas) a mítica (para mim) Monja Coen trocou umas palavras comigo: "Você tem certeza de que não é melhor você ir embora? Perceba a forma que você está sentado. Estás nitidamente desanimado. Acho que esse lugar não é o que você tinha imaginando quando você olhou os vídeos no youtube. Talvez esse não seja um lugar para você."
De fato, naquela manhã eu estava meio para baixo, ainda por conta do quase-desmaio do dia anterior. Mas achei ela apriorista pois, para mim, estar desanimado e desistir são coisas muito distantes.
Mais tarde, naquele mesmo dia, ela disse que até o final do sesshin ela conseguiria me fazer ter raiva dela, em meio a risos. De fato, não me pareceu alguém que transborda amor, como tinha pensado ser pelos vídeos do youtube.

Conversa com o monge Ryosan:
Ryosan é alguém com quem simpatizei desde o primeiro dia, quando ele me abanava. Ele ouviu a Monja Coen/sensei insinuar que eu deveria desistir e me disse que ser rígida é parte das suas atribuições. Que ela está ali para procurar e explorar nossas fraquezas, para que possamos trabalha-las. Lhe respondi que eu só iria embora se ela me expulsasse abertamente.

3º dia.
O que é zazen?
A meditação não se dá apenas quando estamos sentados num zafu com a coluna ereta, mas é um estado da mente. A posição do corpo é apenas um facilitador. E enquanto descascava e cortava frutas para um outro café da manhã, tentava manter uma mente meditativa, isto é, estar inteiro naquela atividade. Foi quando percebi que é necessário energia, muita energia para meditar. Que estar em plena atenção cortando frutas não significa cortá-las muito devagar ou muito rápido. Que se pode cortar as frutas com energia ou preguiçosamente. E que se pode sentar imóvel num zafu, manter a coluna ereta e, sem energia, não fazer zazen. Da mesmo forma pode-se sentar IMÓVEL CHEIO DE ENERGIA(!), empregar a plena atenção e fazer zazen.
Assim, zazen é uma técnica de meditação de atenção (a outra categoria de meditação é a de concentração). Nela, não há inicialmente um obejeto de meditação diferente da  própria mente. Deve-se observá-la com distanciamento, percebendo os pensamento e os não-pensamentos que surgem entre eles. Deve-se observar o corpo, a respiração, a dor. É uma viagem para dentro de si mesmo e deve-se ter energia pois a mente é sedutora e, se a vontade for fraca, é fácil embarcar numa viagem que nos afasta do que acontece no AGORA. (Nesse mesmo dia, a noite, a Monja Coen/sensei falou em uma palestra sobre esse assunto, utilizando curiosamente o exemplo de cortar as frutas.)



Servindo o almoço:
Comer de acordo com a tradição budista é difícil, e desconfio fortemente que seja proposital, para dificultar que se automatizem os movimentos, forçando a atenção a estar sempre no que está sendo feito. Monja Coen/sensei conseguia arrumar as suas tijelinhas e ainda corrigir (com energia) quem não dobrava o lenço de acordo com a tradição.
Servir as refeições é um pouco mais fácil, com exceção da sopa. Quando fui servir a primeira pessoa, a sensei estava de olho e me "chamou a atenção" para 2 erros que eu estava cometendo. Tentando corrigir e fiz ainda pior. "São com três dedos!! Tira esses outro dois!!!". Ai eu tirei os dois dedos da mão errada. "Como é que colocam alguém que não sabe nada para fazer isso?!!!". Então eu fiz mais umas duas coisas erradas e ela começou a rir. Fiquei desconfiando que a rabugisse era só de fachada.

Banquinho de zazen.
A vara zem:
Resolvi minha dormência nas pernas sentando num banquinho, o que é muito mais confortável. Ainda assim, não é fácil manter a coluna ereta e o corpo imóvel por vários períodos diários de 30 min. 
No terceiro dia, sentado no banquinho, ouço um ou dois estalos vindos de dentro da sala de zazen. Como um bom aluno, continuei olhando para a parede branca. A seguir ouvi mais uns dois estalos e com  o "canto de olho" vi uma movimentação. Não resisti: olhei. Vi uma monja segurando régua de madeira com aproximadamente 1 metro de comprimento e 10cm de largura. A seguir ela levantou a régua e bateu forte no ombro de um dos meus colegas. Fez um barulho alto e me voltei rapidamente para a parede, torcendo para que ela não tivesse visto meu mal comportamento/ter olhado. 
Fiquei definitivamente assustado com o barulho que aquela régua fez. Definitivamente. Para piorar, ela começou a vir para o canto da sala em que eu estava, e o que era para ser uma meditação passou a ser uma briga com o corpo para deixar a coluna o mais reta possível, mantendo-me praticamente sem respirar, para não ser punido. Foi quando a monja, andando m-u-i-t-o devagar, chegou até onde eu estava e parou atrás de mim. Condescendente, fechei os olhos... quando veio o barulho! Levei um tremendo susto, mas quem havia sido corrigido foi a pessoa que estava atrás de mim. Ufa!
Apesar de não poder, oficialmente, conversar durante o sesshin, na primeira oportunidade perguntei sobre a tal régua. Me contaram que ela se chama kyosaku, e a monja só bate nas pessoas que pedem ou que a monja vê que estão meio dormindo, mas que ela sempre avisa antes. (Quer dizer, não tem nada a ver com estar sentado torto.)
Num outro dia, na meditação pela manhã, pedi duas vezes pelo kyosaku. Confesso que fez bem para minha meditação, mas eles deveriam ter avisado, desde o primeiro dia, o que era o kyosaku.

5º dia.
O cansaço bate à porta:
Por estar dormindo horas a menos do que estou acostumado, o cansaço físico e mental estava atingindo marcas inéditas. (É ridículo, mas eu estava considerando tirar uma soneca sentado no banheiro.) Juntando-se a isso estavam as várias horas de meditação diárias, o que não é relaxante. Abaixo um depoimento de Charlotte Joko Beck sobre um sesshin:
"Para ser honesta, o retiro é um sofrimento controlado. Temos a oportunidade de encarar nosso sofrimento numa situação prática. Quando nos sentamos para praticar, todos os atributos tradicionais de uma boa aluna zen são postos em xeque: resistência, humildade, paciência, compaixão. Essas coisas parecem fantásticas nos livros, mas não são tão atraentes quando estamos com dor. É por isso que o sesshin deve não ser fácil: temos de aprender a estar com o nosso sofrimento e ainda assim agir da maneira apropriada. Quando aprendemos a estar com nossas vivências, sejam elas quais forem, temos mais consciência do contentamento que é a nossa vida".
Honestamente, eu não estava fisicamente ou mentalmente preparado para para a rotina que o  sesshin impõe. Por isso, após o almoço, sai um pouco do Zendo para caminhar e pensar sobre o que eu estava vivendo. Passei no mercado, comprei pães de queijo (meu vício) e encontrei a monja Heishin.

Conversa com a monja Heishin:
Até este momento o que mais me chamou a atenção foi a alegria serena em que sempre pareciam estar a monja Heishin e a monja Waho-san, e eu não identificar esse mesmo padrão na Monja Coen/sensei. 
Fiquei feliz por ter encontrado a monja Heishin no mercado. Ela me explicou que Dharma é a realidade e o significado de uma "oração" que fazemos durante o zazen:
"O Dharma, incomparavelmente profundo e precioso, é raramente encontrado mesmo em centenas de milhares de anos. A mim, agora, é facultado vê-lo, ouvi-lo e compreendê-lo."
Mas dessa conversa o que mais mexeu com os meus conceitos foi ela ter dito que apesar do caminho para a iluminação ser trilhado a partir do desapego, você não estará nele se não houver o desapego ao desapego. Acho que ela quis dizer que o fluxo das escolhas que fazemos deve ser contínuo e natural.
Voltei para o Zendo, fiz alguns asanas (posturas de yoga) e pranayamas (exercícios respiratórios) para estimular a mente e voltei a sentar em zazen.

6º dia.
Corrida matinal:
Após o último período de zazen do sesshin, Monja Coen seguiu para uma caminhada/corrida em frente ao estádio do Pacaembu sob os olhares atentos da "runner girl" Mônica Peralta, que encontrou mais quatro alunos da sensei dispostos ao exercício, eu incluso.
Fora do Zendo, correndo enquanto o Sol nascia, encontrei na Monja Coen uma pessoa muito divertida. Não houve "puxões de orelha" ou broncas ou aspereza e, com simplicidade e bom humor, nos divertíamos. Foi quando vi a senhora simpática de 64 anos que vestia roupas de ginástica, sorria para a vida e com e vida, e a reverenciei pela humanidade que vi nela, não pela posição que ela ocupa. Ali, sem qualquer apetrecho que lembrasse sua autoridade, foi quando a admirei.

Dokusan:
Dokusan é uma conversa privada com a mestre zen, a qual é normal ocorrer durante sesshins. Conversa-se sobre a condução da prática zen e das experiências tidas durante as meditações. No meu caso ela só ocorreu depois que o sesshin havia terminado e conversamos sobre yoga, kundalini e prana. Mas mais intenso do que termos conversado, foi quando nos silenciamos e ela procurou o meu olhar. Olhamos nos olhos um do outro por vários segundos e senti como se ela estivesse observando a minha alma e de que eu estava nú. Púdico, sorri e desviei os olhos. Ela sorriu de volta, me parabenizou por eu ter "aguentado" todas as suas broncas. Reverencie-a em profundo respeito, pois encontrei em seu olhar uma fração do que acredito que chamam de Buda.

Uma percepção:
Apesar de vivermos em uma sociedade que cultiva a liberdade, estamos cada vez mais presos ao passado e ao futuro. Não percebemos que o passado já foi e que o futuro não existe.
Enquanto não abrirmos mão desses conceitos e não estivermos plenos no agora, não seremos livre.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Multicellular Life Evolves in Laboratory


Wired Science (January 17, 2012)
By Brandon Keim - An evolutionary transition that took several billion years to occur in nature has happened in a laboratory, and it needed just 60 days.
Under artificial pressure to become larger, single-celled yeast became multicellular creatures. That crucial step is responsible for life’s progression beyond algae and bacteria, and while the latest work doesn’t duplicate prehistoric transitions, it could help reveal the principles guiding them.
“This is actually simple. It doesn’t need mystical complexity or a lot of the things that people have hypothesized — special genes, a huge genome, very unnatural conditions,” said evolutionary biologist Michael Travisano of the University of Minnesota, co-author of a study Jan. 17 in the Proceedings of the National Academy of Sciences.
In the new study, researchers led by Travisano and William Ratcliff grew brewer’s yeast, a common single-celled organism, in flasks of nutrient-rich broth.
Once per day they shook the flasks, removed yeast that most rapidly settled to the bottom, and used it to start new cultures. Free-floating yeast were left behind, while yeast that gathered in heavy, fast-falling clumps survived to reproduce.
Within just a few weeks, individual yeast cells still retained their singular identities, but clumped together easily. At the end of two months, the clumps were a permanent arrangement. Each strain had evolved to be truly multicellular, displaying all the tendencies associated with “higher” forms of life: a division of labor between specialized cells, juvenile and adult life stages, and multicellular offspring.
“Multicellularity is the ultimate in cooperation,” said Travisano, who wants to understand how cooperation emerges in selfishly competing organisms. “Multiple cells make make up an individual that cooperates for the benefit of the whole. Sometimes cells give up their ability to reproduce for the benefit of close kin.”
Since the late 1990s, experimental evolution studies have attempted to induce multicellularity in laboratory settings. While some fascinating entities have evolved — Richard Lenski’s kaleidoscopically adapting E. coli , Paul Rainey’s visible-to-the-naked-eye bacterial biofilms  — true multicellularity remained elusive.
According to Travisano, too much emphasis was placed on identifying some genetic essence of complexity. The new study suggests that environmental conditions are paramount: Give single-celled organisms reason to go multicellular, and they will.
Apart from insights into complexity’s origins, the findings could have implications for researchers in other fields. While multicellularity would have a hard time emerging now in nature, where existing animals have a competitive advantage, the underlying lesson of rapid, radical evolution is universal.
“That idea of easy transformability changes your perspective,” said Travisano. “I’m certain that rapid evolution occurs. We just don’t know to look for it.”
Targeted breeding of single-celled organisms into complex, multicellular forms could also become a biotechnological production technique.
“If you want to have some organism that makes ethanol or a novel compound, then — apart from using genetic engineering — you could do selection experiments” to shape their evolution, Travisano said. “What we’re doing right here, engineering via artificial selection, is something we’ve done for centuries with animals and agriculture.”


Citation: “Experimental evolution of multicellularity.” By William C. Ratcliff, R. Ford Denison, Mark Borrello, and Michael Travisano. Proceedings of the National Academy of Sciences, Jan. 17, 2012.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Ilusão da mesma cor, computação evolutiva e impressora 3D


Os quadrados A e B são da mesma cor? Sim, são. Clique aqui para vê-los conectados. A ilusão acima chama-se ilusão da mesma cor, e ilustra que as observações humanas podem ser ambíguas ou imprecisas. Mesmo a percepção direta pode ser relativa (o tamanho da Lua perto do horizonte é umas dessas ilusões). O advento de aparelhos automatizados e dispositivos de medição fizeram a ciência em geral menos propensa à tendenciosidade humana, mas ainda não livre dela.
Há duas invenções humanas que acredito venham a nos tornar uma peça cada vez menos necessaria em processos criativos/produtivos. Nesse caso não haveria o erro humano, mas o que mais deixaria de haver?

1) Computação Evolutiva

É inspirada na evolução natural, onde uma possível solução é copiada e alterada através de processos aleatórios. As versões modificadas são postas a competir com suas versões originais a fim de se verificar se as modificações foram benéficas ou deletérias. Assim, são selecionadas as melhores versões para ser as sementes da geração seguinte, enquanto as demais são excluídas.
O vídeo abaixo dá exemplos mais claros do quanto a computação evolutiva é promissora.


Estes algoritmos já criam soluções que competem com invenções humanas, tendo produzido duas novas patentes e "recriado" outras 21 invenções já anteriormente patenteadas. Aqui o link com esses detalhes.

2) Impressora 3D

O vídeo é auto-explicativo.



Há uns anos vi um documentário na Discovery em que computadores desenvolviam soluções com algoritmos evolutivos, e eles próprios as construíam, com essas impressoras, sem qualquer interferência humana. No final do documentário dizia-se que era fácil imaginar que um dia essas máquinas produziriam outras máquinas e tornar-se-iam independentes. Acredito nisso, mas diferente do que acontece em Exterminador do Futuro (1984) essas máquinas não teriam objetivos distintos dos humanos.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

domingo, 30 de outubro de 2011

As Melhores Fotos em Astronomia - 4/5

Na jornada pela seleção de minha fotos astronômicas preferidas, acabamos de sair do sistema solar e nos dirigimos ao meio interestelar. Dispus as fotos mantendo uma relação de distância, ou seja, primeiro as que estão mais próximas à Terra e depois as mais distantes. Confesso minha incapacidade de selecionar apenas uma como preferida. Divirtam-se!

Primeira imagem de um exoplaneta: Em 2008, depois de oito anos em busca de imagens, os astrônomos Paul Kalas e James Graham conseguiram captar, com uma câmera do telescópio espacial Hubble, as primeiras fotografias de um exoplaneta, situado a 25 anos luz do Sistema Solar. O planeta foi batizado de Fomalhaut b. Créditos: NASA, ESA and P. Kalas.

Pleiades pelo Hubble: No céu noturno poucas coisas chamam mais atenção que este aglomerado aberto, o mais próximo da Terra, há 440 anos luz. As "sete irmãs" são apenas as mais brilhantes de mais de mil estrelas que fazem parte do aglomerado, fracamente ligadas por atração gravitacional. Todas têm aproximadamente a mesma idade, pois tiveram origem na mesma nuvem molecular. Percebe-se certa nebulosidade à volta das estrelas, proveniente de luz refletida por poeira que o aglomerado está a passar enquanto cumpre sua órbita em torno na Via Láctea.


Pleiades pelo Spitzer: O telescópio espacial Spitzer foi lançado em 2003 e detecta luz (radiação) infravermelha, isto é, calor. Tudo na natureza emite calor, o que permite ao Spitzer observar objetos muito mais frios que estrelas ou que seriam ofuscados por seu brilho, como por exemplo, poeira. Aqui a poeira do meio interestelar foi  colorida artificialmente (uma vez que não se pode falar da cor de uma luz que não vemos) com tons de vermelho e amarelo onde a nuvem está mais densa e em verde onde está menos densa.

Nebulosa Olho de Gato: É certo que astrônomos olham para o céu muito mais como o Timão. Me faço entender:

Pumba: Timão?
Timão: Sim?
Pumba: Alguma vez te perguntaste o que são aqueles pontos luminosos lá em cima.
Timão: Pumba, não me perguntei. Eu sei.
Pumba: Sim? O que são? 
Timão: São vagalumes! Vagalumes que ficam grudados naquela coisa redonda lá encima. 
Pumba: Eu sempre pensei que fossem bolhas de gás explodindo a milhões de quilometros daqui... 
Timão: Pumba, tudo para você são gases... 

Hilário!
Pode parecer uma contradição dizer que astrônomos olham o céu muito mais do ponto de vista do Timão, mas é no seu relato que está a poesia, e quem seria louco para dedicar uma vida para olhar só para "bolhas de gás explodindo a milhões de quilômetros"?  Procura-se por muito mais mais que isso, nessa profissão sempre me pareceu tão romântica.

Nessa foto temos um excelente exemplo de poesia, pois a nebulosa NGC 6543 é conhecida como Olho de Gato, e está a 300 anos luz de distância da Terra. Ela é um glorioso final de vida de uma estrela que foi semelhante ao Sol. A estrela no centro da nebulosa teria perdido suas camadas exteriores numa sequência de "convulsões", dispondo, assim, o gás numa série conchas concêntricas com 0.5(!!) ano-luz de diâmetro. Este processo ainda não é bem entendido, mas espera-se que esse seja o destino do Sol em cerca de 5 bilhões de anos. Créditos: NASAESAHEICThe Hubble Heritage Team (STScI/AURA).


Rígel e a Nebulosa Cabeça da Bruxa: Rígel, a sexta estrela maior brilho aparente no céu da Terra,está ao centro da Terra, enquanto a nebulosa Cabeça da Bruxa abaixo e a esquerda. Acredita-se que esta nebulosa seja o gás remanescente de uma supernova. A tonalidade da imagem é azul pois a poeira reflete mais eficientemente a luz azul que a vermelha, mesmo fenômeno que explica que o céu da Terra seja azul, apesar de a nossa atmosfera ser basicamente formada de nitrogênio e oxigênio, enquanto na nebulosa há muito monóxido de carbono. Está a 800 anos luz da Terra. Créditos: Rogelio Bernal Andreo.

Grande panorama da Nebulosa de Eta Carinae: Em comemoração ao aniversário de 17 anos de lançamento do Telescópio Espacial Hubble (2007), o centro da Nebulosa de Eta Carinae foi registrado com 48 fotografias em falsa cor de alta resolução, que de ponta à ponta cobre 50 dos 300 anos luz da nebulosa. Vermelho corresponde a emissões de enxofre, verde de hidrogênio, e azul de oxigênio. A estrela Eta Carina é a mais energética da nebulosa e foi uma das brilhantes do céu por volta de 1830, quando então diminuiu dramaticamente seu brilho. Está a uma distância estimada entre 6.500 e 10.000 anos luz. Créditos: NASAESAN. Smith (U. California, Berkeleyet al.Hubble Heritage Team (STScI/AURA).

Pilar da Nebulosa de Eta Carinae: No interior destes pilares estão estrelas que aos poucos o vão consumindo, enquanto utilizam-no para formação de novas estrelas que formarão um aglomerado aberto daqui a 100.000 anos (à semelhança do que ocorreu com as Pleiades). Os pontos rosa são estrelas recém formadas. Esta imagem foi divulgada em comemoração ao aniversário de 20 anos de lançamento do Hubble. Créditos:  NASAESAM. Livio e a equipe do Hubble 20th Anniversary (STScI).

Nebulosa Cabeça de Cavalo: Está a 1.500 anos luz de distância. Créditos: Marco Burali, Tiziano Capecchi, Marco Mancini (Osservatorio MTM).

A evolução da V838 Monocerotis: Quando observada pela primeira vez, em 2002, pensou-se tratar-se de uma erupção tipo nova, quando grande quantidade de hidrogênio é absorvido por uma estrela, causando grande combustão. Mas a série de fotografias acima deixa claro tratar-se de algo muito diferente: Em questão de meses a V838 Monocerotis transformou-se numa estrela com 5 vezes o raio do Sol, para a terceira maior estrala conhecida, ou seja, uma hipergigante vermelha. Está a 200.00 anos luz. Créditos: H. Bond (STScI), A. Henden (USNO Flagstaff), Z. Levay (STScI), et al., ESANASA.

Formações de poeira na Nebulosa Roseta: As formações de poeira e gás aos poucos vão passando, aos poucos, por erosão devido ao vento solar e partículas energéticas vindos de estrelas massivas na cercania. Em vermelho está o enxofre, verde o hidrogênio e azul o oxigênio. Está a 4.500 anos luz da Terra. Créditos: John Ebersole.

Detalhe da Grande nuvem de Magalhães: Em geral, é fato pouco conhecido que a Via Láctea, nossa Galáxia, tem galáxias menores satélites à nossa. Aqui uma boa ilustração de quais são elas e de onde elas sem encontram. Uma delas se chama Grande Nuvem de Magalhães, e é a região do nosso grupo local de galáxias onde está ocorrendo a mais intensa formação estelar. Em seu centro encontra-se um aglomerado com algumas das mais densas, quentes e brilhantes estrelas conhecidas, que torna toda a região visível (poeira e gás, por si só, não emitem luz). As regiões vermelhas e rosas formam-se com o choque de fótons de alta energia que ionizam o gás. Esta foto, de maio de 2010, é a mais detalhada de uma região de formação estelar. Créditos: ESO.
 
Grande nuvem de Magalhães: O português Fernão de Magalhães, a serviço da Espanha, fez a primeira circum-navegação a volta da terra. Alcançou a Terra do Fogo ao Sul e passou do Oceano Atlântico para o Oceano Pacífico, atravessando o estreito hoje conhecido como Estreito de Magalhães, em homenagem a essa empreitada. Durante a espedição Magalhães também observava o céu e, como resultado, duas nuvens facilmente vistas num céu claro no hemisfério sul chamam-se grande e pequena nuvem de Magalhães. Créditos: John P. Gleason.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

As Melhores Fotos em Astronomia - 3/5

Neste post as oculares se afastaram do nosso lindo globo azul e atravessam o sistema solar. No próximo post teremos as estrelas e nebulosas.

Eclipse Lunar: Lua passa próximo ao centro da sombra da Terra, no eclipse lunar de 28 de agosto de 2007. O eclipse durou cerca de 90 minutos e, é claro, a Lua nunca fica completamente escura, mas reflete uma luz avermelhada, que é a cor com maior comprimento de onda. Essa mesma tonalidade é vista no nascer e pôr-do-Sol. (Saiba mais.) Crédito: Martin Pugh.
O Grande Cânion de Marte: O maior cânion do Sistema Solar faz um longo corte na face de Marte. Chama-se Valles Marineris e estende-se por mais de 3.000 Km e atinge, em alguns pontos, profundidades superiores a 8 km e largura de 600 km. Por comparação, o Grand Canyon (maior da Terra) possui 800 km de extensão, 30 de largura e 1,3 de profundidade. A origem desta formação geológica ainda é incerta, mas trabalha-se com a hipótese de a fissura ter surgido bilhões de anos atrás quando Marte esfriava. Origem esta muito diferente do Grand Canyon, que foi moldado pelo rio Colorado. (Saiba mais.) Créditos: Viking Project
Hyperion, a lua de Saturno: Descoberta em 1848 por astrônomos britânico e norte americano, recebeu o nome do titãHyperion, da mitologia grega. Em fevereiro deste ano a sonda Cassini sobrevoôu Hyperion e descobriu sua aparência semelhante a um esponja. Sua dencidade é tão baixa que pode haver um grande conjunto de cavernas em seu interior. Créditos: Cassini Imaging TeamSSIJPLESANASA


O Sol em falsa cor: Essa imagem foi tirada durante o primeiro dia de operação do satélite Stero (Solar TErrestrialRElations Observatory), que capta luz ultravioleta, logo, por não fazer parte do espectro do visível, não se pode falar de coloração para estas imagens. Em amarelo vemos as áreas do Sol com temperatura de 2 milhões de graus (k); verde, 1,5 milhão (k); azul, 1 milhão (k); vermelhor, 70 mil graus (k). (Saiba mais.Créditos: Stereo ProjectNASA


Júpiter e Ganímedes: O quão densa é a atmosfera de Júpiter? Para descobrir isso o Telescópio Hubble foi apontado para assistir o eclipse de Ganímedes por Júpiter, em abril de 2007. Enquanto Ganímedes desaparecia atrás de Júpiter, ela refletia a luz do Sol através da alta atmosfera do maior planeta do sistema solar. Ganímedes é uma das quatro luas galileanas e maior que Mercúrio e Plutão. Créditos: NASAESA,  E. Karkoschka


Saturno e seus anéis: A sonda Cassini orbita Saturno desde 2004, e nos presenteia constantemente com lindas fotografias do segundo maior planeta do sistema solar. Nesta, de 27 de março de 2004, Saturno e seus anéis ocupam quase a totalidade do campo visual da câmera. De ponta a ponta, o sistema de anéis se estende por 270.000quilômetro, mas não ultrapassa 1,5 km de espessura. Na atmosfera de Saturno o vento alcança 1.800 km/h. Créditos: Cassini Imaging TeamSSIJPLESANASA. 


Urano e luas: A Voyager 2 foi a única sonda a passar por Urano, em 1986. Este é o terceiro maior planeta do sistema solar e que pode ser visto à olho nú. Diferentemente dos planetas mais próximos, este não foi identificado pelos gregos por ter um período orbital muito grande, de 83 anos, por isso sua movimentação é de difícil percepção. Créditos: Voyager 2 TeamNASA

Netuno e Tritão: Montagem de fotos tiradas em 1989 pela Voyager 2, única sonda a visitar Netuno. Este planeta foi descoberto pela matemática, quando verificou-se que algo interferia na órbita de Urano, o planeta anterior. Calculou-se onde estaria o objeto que provocava essa interferência gravitacional e encontrou-se Netuno. É o último planeta do sistema solar e o que tem os ventos mais velozes, com 2.100 km/h. Créditos:  Voyager 2 TeamNASA

terça-feira, 17 de maio de 2011

Acompanhamento da posição de maratonista

(Originalmente escrito para o blog Física dos Esportes)


A Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, lançou edital no início de 2010 buscando apoiar o desenvolvimento de inovações no esporte, e já vem colhendo seus frutos.
Um dos projetos apoiados pela FAPERJ foi o do empresário Bruno Leonardo de Souza Christ, que propôs utilizar a tecnologia de identificação por rádio-frequência - RFID, na sigla em inglês - para o controle e acompanhamento de esportistas cíclicos, como maratonistas e ciclistas. São esportes que podem ter grande número de participantes (visto os 20.000 atletas da última São Silvestre), com muitos deles alcançand­o as linhas de chegada quase que simultaneamente (como ocasionalmente ocorre nas arrancadas finais de grandes provas de ciclismo), o que cria problemas para ranqueá-los e torna praticamente impossível acompanhar o desempenho de cada um dos atletas em diversos pontos ao longo da prova... ao menos até agora.
A tecnologia criada por Bruno em parceria com a Allen Informática e financiamento da FAPERJ, promete acabar com esses problemas. O atleta utilizaria no tronco, ou pulso ou até na própria bicicleta, um RFID descartável e de baixo custo, fazendo assim o seu monitoramento inclusive em multidão de outros esportistas.
O RFID utilizado por Bruno consiste num transponder, do tamanho de uma etiqueta, que emite um sinal em resposta a uma emissão de uma base transmissora. Esses aparelhos comunicam-se entre si através de rádio-frequência, que faz parte do espectro eletromagnético, da mesma forma que a luz visível, o raio-X e o microondas. Todas elas viajam a velocidade da luz e diferenciam-se entre si apenas pelo seu comprimento de onda, como se diferenciam cada uma das cores que nosso olho consegue distinguir. Essa é uma definição mais ampla sobre o que é a luz, e que costumamos nos referir apenas como aquilo que conseguimos enxergar, que, na realidade é a sua menor parte.
Assim, a rádio-frequência também é luz, e viaja a 300.000 Km/s (com essa velocidade se daria sete voltas e meia em torno na Terra em apenas um segundo). Essa é outra vantagem do método de medição utilizado por Bruno, pois possui atraso de medida apenas referente ao tempo de resposta do equipamento, o que é desprezível. Tecnologia similar já é utilizada, por exemplo, em painéis de carros para o pedágio automático, ou em equipamento anti-furto, pois cada RFID é capaz de ter um único número de identificação.
A proposta de Bruno é colocar série de bases transmissoras ao longo da prova e colher, para cada atleta, os tempos e distâncias percorridas, permitindo fazer uma análise rigorosa de seu desempenho. Já foram realizados testes em competições, sendo o resultado satisfatório tanto a Bruno como para os atletas e organizadores do evento. O objetivo agora será convencer outros organizadores a testar a idéia e, quem sabe, até chegar nas Olimpíadas de 2014!
Pessoalmente, acredito nessa ideia.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Física e arte: análise do quadro "Naturaleza Muerta Resucitando", de Remédios Varo

A população da Europa no sec. XVII se habituava a existência da prensa móvel, criada por Johannes Gutenberg em 1439, que retirou na igreja a monopólio sobre os livros, e via crescente sua curiosidade acerca da ciência, dos astros, da alquimia e da matemática, afinal, a pouco a Terra havia sido deslocada do centro do universo, para apenas um local qualquer no infinito do cosmo.
Foi um século de efervescência, com cafés abrigando “faculdades à centavos” entre intelectuais burgueses e homens nascidos do povo, para conjecturar a respeito da filosofia da vida e da natureza. De um desses encontros surgiu importante oposta entre dois cavalheiros, a ver quem descobriria primeiro os motivos que impulsionam os planetas a volta do Sol. Um deles, ciente da dificuldade do problema proposto, foi a procura do professor de matemática da Universidade de Cambridge: Isaac Newton, que, surpreendentemente, já tinha a resposta.

Quadro Naturaleza Muerta Resucitando, de Remédios Varo

O quadro da pintora surrealista Remédios Varo, Naturaleza Muerta Resucitando (1963), sintetiza muito da essência dessa época e de um conhecimento que foi aos poucos sendo dilapidado por Galileu Galilei, Johannes Kepler e Isaac Newton, tomando como metáfora a maçã que o jovem Newton teria visto cair de um pomar e que o fizera questionar sobre as forças que regem a gravidade.
Há controvérsias sobre a veracidade da história da maçã, que Newton apenas começou a contar após atingir idade mais avançada, mas é certo que suas ideias lançaram luz a toda ciência da época, e nova lenha aos acalorados debates científicos, o que Varo “brilhantemente” representa por uma vela no centro de uma mesa, à volta da qual giram maçãs e peras, numa coreografia com certa confusão.
A física newtoniana, pela primeira vez, escrevia equações que eram aplicáveis a fenômenos triviais, como o lançamento de projeteis, e a grandes eventos, como a órbita de planetas, criando um elo entre a física da Terra e física universal. Assim, nosso planeta nem possuía um local especial na “criação”, nem era provida de leis físicas diferenciadas.
No quadro de Varo também podemos ver uma representação da formação de um sistema solar, podendo ser o nosso ou não, visto que são as mesmas leis que regem todo o universo. No centro do sistema teríamos uma protoestrela, e à volta, protoplanetas, que continuam a crescer a partir da sua aglomeração violenta com outros protoplanetas, por não terem sua órbita desobstruída. Ainda como representação da gravidade, há o nítido movimento espiralado da toalha sobre a mesa, que imita o movimento dos planetas. Já as bordas da toalha elevam-se em direção à proestrela, representando que a gravidade continua sempre a atuar, mesmo a longas distâncias, por uma força, descrita por Newton, que se reduz com o quadrado da distância entre os corpos.

Representação artística da formação de um sistema solar
Naturaleza Muerta Resucitando foi o último quadro de Remédios Varo, que morreu em 1963. Compreender o significado do nome deste quadro implica saber que uma estrela, na verdade, nunca morre. Após completar seu ciclo de fusão e acabar o material combustível, ela se dispersa pelo universo e, eventualmente, participará de nova nuvem molecular, que irá se condensar, por manutenção do momento angular irá girar e achatar-se, e formará novas estrelas e planetas.  Assim, a natureza “morta” se reinventa, se recicla, ressuscita. (nosso próprio Sol é uma estrala de segunda geração)
(Existe outra análise desse quadro muito diferente desta, na qual a mesa representa a infância de Remédios Varo, a vela a pureza espiritual buscada pela artista, e as “frutas explodindo” os obstáculos vencidos. É interessante para ver o quanto essas obras podem ser subjetivas.
Está disponível em: http://clio.rediris.es/exilio/remediosvaro/ObrascomentadasRVaro.htm)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Ensinando física de um modo diferente

Um pequeno diálogo criado para explicar a velocidade da luz e o que realmente observamos.

Thiago: Rodrigo, eu estava em casa lendo uma revista de ciência e uma reportagem falava que quando assistimos ao pôr do Sol, na verdade ele já se pôs. Mas como isso é possível?
Rodrigo: Sim, para os minutos finais isso é verdade. Isso acontece porque nós vemos o Sol como ele era 8 minutos atrás, quer dizer, nós nunca enxergamos como ele está agora, ou na sua real posição no céu.
Thiago: Quer dizer que o que vemos não é realmente o que está acontecendo?
Rodrigo: Pode se dizer que sim. Mas para o Sol está muito, muito distante, e isso faz com que o vejamos mais no passado do que a maioria das outras coisas.
Thiago: Então você está me dizendo que o passado e o presente existem ao mesmo tempo? Porque eu vejo no presente as coisas que estão no passado... quer dizer, eu estou no presente, certo?
Rodrigo: Tudo o que vemos está no passado,e quanto mais distante está o objeto, mais no passado ele está. Isso porque não vemos o objeto em si, vemos a luz que viaja até nossos olhos a uma velocidade finita de 300.000 km/s, o que é muito, muito rápido. Mas você é o observador, o referencial, que está a uma distância nula de si mesmo, nesse sentido você está mais no presente que aquilo que você observa, que está mais distante.
Thiago: Deixe-me ver se entendi: como a distância entre eu e mim mesmo e você e você mesmo é zero, podemos dizer que vemos um ao outro no passado, apesar de vermos a nós mesmos no presente?
Rodrigo: Como a luz viaja muito rápido, o passado e o presente se confundem quando o que observamos está relativamente próximos à nós – algumas centenas de quilômetros –, e tudo pode ser resumido ao presente. Por isso podemos dizer que nós dois vivemos no presente e nos observamos no presente, apesar de a distância até o objeto não ser zero... mas se eu estivesse na Lua e você aqui, já não poderíamos falar isso.
Thiago: Mas falamos de passado e presente, e fico me perguntando o que seria o tempo.
Rodrigo: Bem... isso já é uma outra história.